Conversas na palma da mão

Mãos escondidas nos bolsos

Quase sem dar por ela, caí na ratoeira de dar mais atenção à forma do que ao conteúdo. Não sei ao certo quando aconteceu. “O meio é a mensagem!” - lembro-me de andar a dizer aos sete ventos, ainda com o livro do Mcluhan à metade. E esse era o problema! Meias-palavras, meias-mensagens. Deixei-me levar pelas possibilidades inesgotáveis da formatação, a maquilhagem dos meios, e esqueci-me do que tinha para dizer.

As palavras perderam a graça e começaram a ocupar, sem intrusão, as ferramentas do futuro. E eu cansada de correr entre plataformas, redes e algoritmos. Onde, pelo caminho, desvalorizei as conversas que guardava na ponta da língua. Estava na hora de juntar meio e mensagem novamente. Agora resta esperar que, desta vez, a massagem não se perca no processo.


💾 Nostalgia

“O século 20 começou com uma utopia futurista e acabou com nostalgia.“ - Svetlana Boym

Tenho andado a pensar muito sobre memória. Que pedaços de informação vou querer guardar para a prosperidade? A italiana Archivio faz um trabalho excelente de curadoria do passado. Mas, quando olho para aquilo que consumo digitalmente, questiono-me sobre que recantos da internet é que vamos relembrar. O website Internet Archive partilhou recentemente gravações da MTV feitas durante a década de 80 e no site dos The Webby awards ainda é possível celebrar os vencedores de 1997. Com tanta informação, o passado já não se consegue guardar numa gaveta. Resta-nos a boa memória para recordar e o are.na para organizar.


💻 Tempo presente

“Os visitantes dentro do templo

ignoram

que as cerejeiras floresceram.” - Matsuo Bashô

Um dos melhores artigos que li esta semana foi escrito pelo Victor Anthony Lopes Carmen, para a Teen Vogue, sobre as dificuldades que as comunidades indígenas enfrentam durante esta pandemia. A revista, antes conhecida pela leveza dos seus conteúdos, tem vindo a marcar posição com uma forte aposta na produção de conteúdos ligados à política, identidade e cultura. O responsável por esta mudança foi o editor Phillip Picardi que, entrevistado para a edição “For young and old” da Fantastic Man, comentou:

“It’s a stark reversal of the kind of turgid, authoritarian tone of old-school print newspaper and magazines, a brave new approach that capitalises on interactivity, imtersectionality and, ultimately, the always elusive zeitgeist, which, in the contemporary era, is, decidedly concocted by youth.”


🔍 Ventos futuros

“The past is always tense, the future perfect” - Zadie Smith

Arrependo-me de não ter visitado o Stedeliijk quando estive em Amesterdão. Na altura não houve tempo suficiente, agora há de sobra. Para compensar, vejo os mini documentários que partilham no Youtube, sigo as tours através da IG TV e transformo as plantas em arte moderna. O futuro é amanhã, e os museus já se fizeram ao caminho - basta ouvir o podcast do David Zwirner para perceber.


🤔 “What makes people become activists?”

Esta foi uma das perguntas que o Severin Matusek do Co-matter fez ao Peter Sunde, co-fundador do site The Pirate Bay. Enquanto espero pela tua resposta, vou vê-lo a passar de entrevistado a entrevistador na série documental The Activist.

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Até já!

Inês 🌿


A Internet num Telegrama é uma newsletter sobre meios, mensagens e humanos, escrita por mim - a Inês da Nevoazul. Duas vezes por mês, vou partilhar conteúdos que exploram a forma como comunicamos na era da informação. A ilustração em cima foi feita pelo Pedro Codeço.