Ler à sombra da Internet

ou como as revistas independentes são o sol que precisamos

Lydia Davis escreveu que existem dois tipos de leitura. No primeiro, o texto torna-se invisível e a atenção fica presa apenas na história. Lemos, como quem se deixa levar por uma narrativa que fluí, sem sobressaltos, na nossa mente. Nas palavras de Lydia Davis, fica a sensação que “a ficção tem mais realidade do que eu.”

O segundo tipo de leitura pede por atenção. Faz-nos ganhar consciência do texto, da sequência de palavras e das lógicas que o autor escolheu. Aqui somos leitores atentos, estudiosos a expandir a mente.

Quando leio revistas independentes, navego por estes dois espetros da leitura. Deixo-me perder nos artigos, ensaios e entrevistas, só para depois, num folhear de página, a minha mente despertar com um layout diferente ou um destaque que me obriga a fazer zoom out e a recuperar, novamente, a consciência do meio impresso que tenho em mãos. À sombra das distrações da Internet, é com estas publicações fragmentadas que testo a maleabilidade da minha mente.

O que posso dizer, dias de sol pedem leituras caleidoscópicas.


💾 Nostalgia

“I know who I was when I got up this morning, but I think I must have been changed several times since then” - Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Cair no buraco de um coelho era impensável para um humano, pelo menos até 1865 - o ano em que o escritor Lewis Carroll fez a Alice cair numa toca e perder-se num mundo desconhecido. Com a Internet, a expressão Rabbit Hole tornou-se metáfora dos momentos em que tropeçamos, figurativamente, em buracos de informação que testam a nossa curiosidade e obsessões. Só esta semana é que me deixei levar pelas entranhas deste tema, mas à cinco anos, dois meses e 17 dias, Kathryn Schulz já tinha escrito o artigo “The Rabbit-Hole Rabbit Hole”, uma reflexão brilhante sobre os novelos que desenrolamos na Internet.


💻 Tempo presente

“I think that ideas exist outside of ourselves. I think somewhere, we're all connected off in some very abstract land. But somewhere between there and here ideas exist.” - David Lynch

Sempre fui apreciadora de nuvens, mas só descobri recentemente que podia oficializar essa admiração. A Cloud Appreciation Society é uma comunidade com mais de 49.000 membros, pertencentes a 120 países, determinada a contrariar o “blue sky thinking” e a admirar os céus nublados. Entretanto, comecei a ver a série Connected, uma das novidades da Netflix, e descobri que o meu fascínio por nuvens estava apenas a começar. No quinto episódio da série, o jornalista de ciência Latif Nasser investiga o nascimento da previsão metereologica e a sua ligação com os dados que hoje armazenamos na nuvem. No Twitter, descobri que as montanhas de água temporárias a que chamamos nuvens são mariores do que imaginamos. Sinto que passei a semana inteira com a cabeça nas nuvens. Não estou, nem um pouco, arrependida.


🔍 Ventos futuros

“We made the buttons on the screen look so good you'll want to lick them” - Steve Jobs

Matt Webb está indignado. Estamos em 2020 e os ecrãs não só não se adaptaram à variação do sol, como não os conseguimos sentir. No seu blogue Interconnected, Webb escreve sobre as expectativas que criámos na última década e como os milhões de smartphones fabricados anualmente são uma ofensa à imaginação.

I should be able to run my thumb over my phone while it’s in my pocket and feel bumps for apps that want my attention. Touching an active element should feel rough. A scrollbar should slip. Imagine the accessibility gains. But honestly I don’t even care if it’s useful: 1.5 billion smartphone screens are manufactured every year. For that number, I expect bells. I expect whistles.


E a pergunta do dia é:

🤔 “Quais são as revistas que lês de uma ponta à outra?”

Fico à espera da tua resposta nos comentários! Vamos fazer desta newsletter um espaço de partilha, onde podemos trocar ideias, sugestões e recomendações.

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Até já!

Inês 🌿


A Internet num Telegrama é uma newsletter sobre meios, mensagens e humanos, escrita por mim - a Inês da Nevoazul. Duas vezes por mês, vou partilhar conteúdos que exploram a forma como comunicamos na era da informação. A ilustração em cima é do Pedro Codeço.