Palavras leva-as o vento

Ou como a inteligência artificial não sabe nadar

“Tens mais olhos que barriga!” - ouvia eu, no pico da infância, quando a fome já não era tanta e a vontade de comer era pouca. Sem circunstância, deixava o prato meio cheio e lá ia eu, com a tranquilidade de quem sabe que tem olhos grandes, mas não maiores do que a barriga.

Enquanto crescemos, torna-se cada vez mais fácil percebermos que as palavras são feitas de referências, ambiguidades e trocadilhos, conjuntos de letras que constroem e descrevem a nossa realidade. Para nós, humanos, esta ideia faz parte do senso comum, como algo que adquirimos naturalmente à medida que experienciamos o mundo. Para os sistemas de inteligência artificial, isso não é um dado garantido.

Já existem modelos de linguagem que, sem supervisão humana, conseguem criar parágrafos inteiros de textos coerentes e gramaticalmente corretos. Aprendem imitando a forma, estilo e vocabulário de mais de 8 milhões de artigos. O que se perde nesta fórmula é o sentido e a verdade.

Quando comunicamos através da linguagem, usamos o conhecimento empírico como bússola, peso e medida. Sabemos que as laranjas são cor-de-laranja, mas que as rosas também podem ser vermelhas ou brancas, e não apenas cor-de-rosa. Esta característica inocente da linguagem é o calcanhar de Aquiles da inteligência artificial.

Talvez a próxima newsletter possa ser escrita inteiramente por um sistema de AI. Emprestava-lhe a plataforma e deixava-o divagar. Nem tudo iria fazer sentido, mas já a Patti Smith dizia: “Não é assim tão fácil escrever sobre nada”. E para estas máquinas inteligentes, quase tudo é nada.


💾 Nostalgia

“Nostalgia é essencialmente história sem culpa.” - Michael Kammen

Em 1982, quando a revista Times anunciou o computador como pessoa do ano, o Prince lançava o álbum “1999” - uma mistura de sintetizadores e vozes robóticas que nos levava diretamente para o futuro. Aquilo que eu não sabia era que o fascínio do Prince com a tecnologia ia além das batidas mecânicas das suas músicas. Ao ouvir o podcast “Function” do Anil Dash, descobri que o Prince foi um dos primeiros artistas a disponibilizar músicas para download e streaming, a criar comunidades online e a financiar um álbum através de crowdfunding - uma década antes do Kickstarter ter sido inventado. Quando, na década de 80, os computadores ainda estavam apenas a chegar, o Prince já estava em 2020 - o seu 1999.


💻 Tempo presente

“Para mim, a atração de ser astronauta não era tanto a Lua, mas voar num meio completamente novo" - Neil Armstrong

Temos sido exploradores cautelosos no que diz respeito à internet. Já não nos aventuramos a saltar para a última página de pesquisa do Google, nem deixamos a curiosidade ir além daquilo que o algoritmo escolhe para nós. Para quebrar um pouco estas rotinas e vícios digitais, o astronaut.io apresenta-nos uma seleção de vídeos que têm perto de zero visualizações. Cinco minutos no site são suficientes para perceber que o feed do YouTube é um circuito fechado de popularidade. Para compreendermos de forma mais abrangente o que a internet tem para nos oferecer, temos de pensar como um astronauta.

“Today, you are an Astronaut. You are floating in inner space 100 miles above the surface of Earth. You peer through your window and this is what you see. You are people watching. These are fleeting moments.

These videos come from YouTube. They were uploaded in the last week and have titles like DSC 1234 and IMG 4321. They have almost zero previous views. They are unnamed, unedited, and unseen (by anyone but you).”


🔍 Ventos futuros

“Nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar.” - Albert Einstein

O SPACE10 faz o contrário. Está sempre a pensar no futuro, porque ele não tarda a chegar. Depois do laboratório de ideias do IKEA nos ter apresentado projetos sobre como será viver em comunidade no ano 2030, e sobre os desafios da Inteligência Artificial, a atenção agora foca-se nas abelhas. Com o propósito de inspirar as pessoas a protegerem esta espécie ameaçada, o SPACE10 criou uma plataforma digital onde qualquer pessoa pode desenhar, personalizar e fazer o download de uma casa para as polinizadoras locais. Se ficaste curioso, na próxima terça-feira, dia 2 de junho, podes assistir a uma sessão online com os colaboradores do projeto.


E a pergunta do dia é:

🤔 “Nos teus passeios pela internet, que projetos e conteúdos têm chamado a tua atenção? ”

Fico à espera da tua resposta nos comentários! Vamos fazer desta newsletter um espaço de partilha, onde podemos trocar ideias, sugestões e recomendações.

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Até já!

Inês 🌿


A Internet num Telegrama é uma newsletter sobre meios, mensagens e humanos, escrita por mim - a Inês da Nevoazul. Duas vezes por mês, vou partilhar conteúdos que exploram a forma como comunicamos na era da informação. A ilustração em cima foi feita pelo Pedro Codeço.